Para caracterizar Santa Eulália, é preciso dizer que é nome duma grandiosa povoação que se faz e vai fazendo num extenso, fecundo e aprazível Vale, situado entre dois montes (uma a Este, Maragoutos, e o outro, a Oeste, Penabesteira). Neste Vale, passa o regato de Sá, afluente do Rio Vizela, correndo de Sul para Norte.

A freguesia de Santa Eulália pertence ao concelho de Vizela, de cuja sede dista aproximadamente três quilómetros. O seu orago é, como o próprio nome indica, Santa Eulália, a mais celebrada virgem mártir de Espanha.

A ocupação humana no território de Santa Eulália remonta possivelmente a épocas pré-romanas, e a comprová-lo encontra-se não só a toponímia, mas também alguns vestígios arqueológicos, como é o caso da Necrópole da Senra.

A primeira referência, que se conhece, às terras de Santa Eulália, data do século X. Foi referida na obra de João Gomes de Oliveira Guimarães, Abade de Tagilde, intitulada “Vimaranis Monumenta Histórica”.

É possível portanto dizer-se que, no século X, a atual freguesia já existia, tendo sido mencionada numa carta de doação. Trata-se da “Carta de Hereditate de Sancta Eolalia”, um documento que se encontra no livro de registos da Colegiada de Guimarães, com o título “Livro de D. Mummadona” e que é datado de 28 de Agosto de 949.

O Conde Hermenegildo Gonçalves, filho e herdeiro do Conde Gonçalo Betote e da Condessa D. Teresa, surge possuidor de grande parte da área de Santa Eulália (o topónimo Barrosas surgiria mais tarde) e, em 950, na divisão da herança do referido conde, entre a sua viúva, D. Mummadona e seus filhos, ficou à viúva a parte de “Sancta Eolalia in ripa Avizelle”. Por sua vez, D. Mummadona doou estes bens, em 959, ao seu Mosteiro de Guimarães. Em 993, o Conde Gonçalo Mendes, filho dos Condes Hermenegildo e Mummadona, faz doação dos bens “incomuniatos” que tinha em Barrosas (crê-se que não era apenas Santa Eulália, mas também Santo Estêvão), ao mosteiro que seus pais haviam construído.

Há também a salientar uma nova referência a este território no inventário de todas as terras e igrejas de Guimarães mandado fazer pelo imperador D. Fernando de Leão e Castela, em 1059.

Nas Inquirições de 1258, na paróquia “ecclesie Sancte Ovaye de Barrosis” é referido que na “colação” existiam 58 casais divididos por mosteiros e fidalgos e que o rei D. Sancho I criou o couto; já nas Inquirições de 1288 é mencionado que na freguesia de Santa Eulália de Barrosas “há hi um couto per padrões que há de linhagem de D. Martim Fernândez de Riba Avizella, e dizem as testemunhas que ouvirom que o coutou el-rei D. Afonso (…) a D. D. Martim Fernândez; e per razom deste couto levam os senhores dele serviços de homees da Costa (do Mosteiro da Costa) (…)”. Já as Inquirições de 1288, referem esta freguesia como “Santa Ovaya”.

De facto, durante o século XIII, a freguesia de Santa Eulália teve a ver com momentos de alta relevância da História de Portugal, a guerra civil que opôs os reis irmãos D. Sancho II e D. Afonso III. Em Barrosas (Santa Eulália), mais precisamente no lugar da Torre, ter-se-ia recolhido D. Sancho II, conforme sugere o texto transcrito da Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

«TORRE»: lugar da freguesia de Barrosas (Santa Eulália), Concelho de Lousada. O assento desta povoação corresponde ao do Paço do Couto dos Fidalgos, tão notável já nesta paróquia no séc. XIII; e, assim, deve-se crer que se trata de Torre Senhorial, na origem.  O couto a que pertencia este paço e lugar era chamado então «Couto de Água Levada», da paróquia «Ecclesie Sancte Ovaye de Barrosis», segundo se vê nas Inquirições de D. Afonso III; e o próprio paço torreado tem a grande importância e curiosidade de nele ter sido criado D. Sancho II. Este facto por outro lado, é confirmativo da existência do paço apropriado a tal criação e pode subministrar uma indicação dos principais senhores do couto e sua Terra, desde que se saiba quem criou o infeliz Rei. Ao couto da torre da Água Levada em Barrosas de Riba Vizela referem-se as sobreditas inquirições muitas vezes, na respectiva «Inquisito Ecclesie Sancte Ovaye» mencionada. Por exemplo, ao dizerem que na paróquia tem o Mosteiro de Vilarinho para cima de doze casais, ficando no couto dentro de balizas, dez; que o Mosteiro da Costa possuía quinze casais, ficando treze dentro de balizas (pois o couto, de feito, fora demarcado por padrões); que o filho de Algo Vicente Rodrigues era proprietário de onze, sendo quatro no couto; e assim mais casais, como dois no Mosteiro de Fiães um dos filhos do Fidalgo D. João Martins «A vana» (que era descendente directo de Egas Moniz “de Riba-Douro” e da estirpe dos “da Maia”, por seu pai, rico-homem d. Martim Peres) e vários de outros Fidalgos notáveis como D. Mem Soares. O couto fora criado por D. Sancho I e, como nele se criou o neto, sendo o avô vivo, o qual neto foi o futuro D. Sancho II, é crível que aquele Rei o fizesse em atenção a D. Estefânia Soares, ama daquele príncipe. Que ela o foi, é facto documento por um diploma de 1213 (v. Soares, D. Estefânia), e que D. Sancho II se criou aqui, dizem-no as Inquirições de Barrosas. Os nomes daqueles fidalgos possuidores de bens ou casais no couto desta presumida Torre de Água Levada, ou hoje no lugar da Torre, são todos encontrados na linhagem dos “de Riba Vizela” onde fica Barrosas e a que pertence o rico-homem , D. Martins Fernandes “Riba Vizela”.

Avançando mais um pouco no fio do tempo e da história, as Inquirições de D. Dinis de 1307 dão-nos notícia da casa mais nobre de Santa Eulália de Barrosas, a Casa de Sá, situada a 1 km de Vizela. Esta casa esteve direta e indiretamente ligada aos momentos mais significativos da História de Portugal e nela nasceram e se criaram personalidades de grande prestígio. É de salientar os nomes de alguns dos mais ilustres membros da família Moreira de Sá, proprietária, durante séculos, de tão nobre casa:

  • Francisco Joaquim Moreira de Sá – a este nobre se ficou a dever a primeira fábrica de papel produzido com massa de madeira – a 1ª da Europa, que se veio a construir na sua quinta da Cascalheira. Para esse efeito se desfez de 11 quintas, na distância de uma légua da Casa de Sá, de 13 moradas de casas em Guimarães e de 10.000 medidas de foros em Margaride e Montelongo. Infelizmente esta grande empresa viria a ser saqueada e incendiada com as invasões francesas e o próprio Moreira de Sá foi obrigado a embarcar, com a família, na esquadra que levou D. João VI ao Brasil. Foi, tal como seus filhos, adepto dos ideais do liberalismo, vendo a sua casa sequestrada pelo governo absolutista de D. Miguel.
  • Miguel António Moreira de Sá – foi um heróico combatente liberal, um dos cinco protagonistas da célebre fuga do Castelo de Guimarães onde se encontravam presos pelo governo miguelista e condenados à morte. Embarcou então para o Brasil de onde regressou quando o governo de D. Maria II foi restabelecido. Foi tenente do Batalhão de Voluntários de Guimarães, vereador da Câmara de 1834 a 1835, indo posteriormente residir para Lisboa em virtude de ocupar a Direcção de “O Nacional”, órgão oposicionista a Agostinho José Freire.
  • Major Valentim Brandão Moreira de Sá Sottomayor – foi igualmente distinto e brioso militar liberal, comportando-se heroicamente no Cerco do Porto, pelo que foi condecorado por D. Maria II com a mais alta condecoração portuguesa: a Ordem da Torre de Espada, do Valor, Lealdade e Mérito.
  • Ana Amália Moreira de Sá – a Ana de Sá dos murmúrios de Vizela, cantada por Camilo Castelo Branco, Dama que hasteou a signa escarlate da sua rosa, no famoso torneio literário das duas rosas realizado em 1849.
  • Mestre Bernardo Valentim Moreira de Sá – insigne musicógrafo, pedagogo, fundador do Conservatório de Música do Porto e do Orpheon Portuense, a mais antiga sociedade do género na Península – um nome de projecção internacional.
  • Engenheiro Fernando Moreira de Sá – militar de grande brio, herói de Nevada, em Moçambique, na 1ª Grande Guerra. Foi Governador Civil do Porto e 1º Director dos Serviços de Engenharia e adido ao Ministério do Interior, em comissão extraordinária de serviço público.
  • Engenheiro Manuel Duarte Moreira de Sá e Melo – distinto Engenheiro Civil, introdutor em Portugal das construções em cimento armado. Foi Director da Companhia Hidro-Eléctrica do Varosa.
  • General Alfredo Ernesto de Sá Cardoso – um dos responsáveis pela Revolução de 05 de Outubro de 1910, herói da Companhia do Luanda, Angola, Comandante da Artilharia Portuguesa em França, na 1ª Grande Guerra, Governador Civil do Funchal e Ministro do Interior, após a instauração da República.

Sobre Santa Eulália de Barrosas, o Dicionário Geográfico “Portugal Antigo e Moderno” de Pinho Leal refere o seguinte:

«Barrosas – Vila, Comarca e Concelho de Lousada, 25 quilómetros a E. de Braga, 345 a N. de Lisboa, 260 fogos, 1000 almas. Em 1757 tinha 200 fogos. Orago Santa Eulália. Arcebispado de Braga, Distrito Administrativo do porto. Esta Vila é de criação moderna, assim como o seu Concelho que tinha 1740 fogos, e que pouco tempo durou, sendo suprimido em 1855. Era antigamente do concelho de Guimarães».

Administrativamente, Santa Eulália pertenceu ao termos de Guimarães e, em 1836, o liberalismo criou o concelho de Barrosas, de que em Santa Eulália foi sede; este foi um dos maiores concelhos do país, com muita importância política e social na região. No início da sua existência, ficaram a pertencer ao concelho de Barrosas 49 freguesias, implicando a divisão de alguns concelhos e a extinção de outros, como foi o caso de Unhão, Felgueiras, Pombeiro e Lousada (alguns deles foram novamente instituídos). O concelho de Barrosas foi extinto em 1852, passando esta freguesia com a designação de Barrosas (Santa Eulália), ao concelho de Lousada.

Da sua história mais recente destaca-se mais uma profunda alteração administrativa, já que passou a integrar o Concelho de Vizela, Distrito de Braga.

O Município de Vizela (e a sua elevação a cidade), criado pela Lei nº 63/98 de 1 de Setembro, situa-se na convergência do Minho com o Douro Litoral e reúne sete freguesias: Infias, Santa Eulália, Santo Adrião, S. João, S. Miguel, S. Paio e Tagilde. Possui uma área de 24km2.

Em 19 de Abril de 2001 foi aprovado na Assembleia da República a proposta para exclusão de “Barrosas” do nome da freguesia, passando de “Barrosas (Santa Eulália)” para “Santa Eulália”.

Mais recentemente, no dia 06 de Abril de 2011, foi aprovada em plenário da Assembleia da República a elevação da povoação de Santa Eulália à categoria de Vila e posteriormente publicada no D.R. nº 119, 1ª série, Lei nº 40/2011 de 22 de Junho.